“Minha rotina é bonita. Acordo cedo, geralmente ainda exausta como se a noite fosse um sopro de descanso. Procuro os chinelos, vez ou outra esbarro nos móveis do quarto e ganhos novos hematomas pelo corpo. Escovar os dentes enquanto fito uns olhos castanhos nos espelhos. Eles não dizem nada de mim. São os únicos que não o fazem. Antes que o leitor, acostumado a fitar-me através de escritos doentios, acuse-me, eu gostaria de deixar claro que não é dissimulação… É outra cousa a qual sou incapaz de dar nome. Demoro-me o máximo de tempo possível num banho. Reflexão. Visto qualquer coisa, um jeans velho, um vestido qualquer, all star ou sapatilhas, ajeito o cabelo com as mãos e estou pronta. A rua, que é mesma todos os dias, tem sempre um riso diferente, um novo dia ou ”bom dia”. Na parada de ônibus, sempre cheia, risos das crianças que vão para a escola, senhorinhas trocando receitas de remédios caseiros e eu. Eu, só. Como sempre. O trabalho, as pessoas que me sorriem gentis todos os dias, os clientes que atendo com sincera afeição vinda de não sei onde, os telefonemas exasperados que me fazem rir, a simplicidade de uma gente, que já não tem pra onde fugir. Ao fim do dia o corpo já pede repouso, mas o âmago se agita, as aulas, a literatura, o que me move, me impulsiona. Um par de olhos. Uma queda. Vertigem. Os sorrisos daquelas pessoas que ganharam meu apreço, com tão pouco. Um beijo. Risos contidos e saboreados no silêncio. O céu espalhando seus pontinhos luminosos que me iluminam também, acendem meu peito num contentamento singular. E a lua. Vez ou outra, é verdade… Mas a raridade só aumenta a intensidade do prazer que sinto, quando ela se estampa no veludo intenso do céu noturno. Exausta me deito. O riso não se apaga. A euforia não me deixa dormir. Fecho os olhos e vejo outros olhos. Olhos abismos… Profundos, profundos… O sentimento é raso, mas a sensação oceânica. Bom viver assim, aos trancos intensos dos desejos violentos. Falo de poesia, política, esmeraldas, ametistas, danças, música, sexo, amor. Minto, amor não! Por que este, ainda não agitou meu âmago moço e quase ingênuo.
Já é manhã e o sopro já se foi. Procuro os chinelos.
Sabe, você me traumatizou, ando com medo de tudo o que exige entrega e profundidade, ando sendo um porquinho-da-india que se esconde embaixo do fogão. Até meus textos andam rasos, essa conversa de mim para mim mesma, anda entrecortada, cuidadosa, como se nem eu, merecesse um fiozinho de confiança.
O moço dos olhos claros veio me ver hoje mais cedo, me falou do céu, da cor das estrelas, e eu pensei que elas brilhavam feito os olhos dele. O moço tem uma fala mansa, um abraço grande, um sorriso largo, é dessas pessoas que levam a gente, sabe? Eu sei que sabe. Mas olha, eu mal consigo sorrir pro moço.
Você me bagunçou permanentemente, nem tenho mais coragem de convidar alguém pra me visitar. És um desordeiro! Minha vontade é te puxar pelos cabelos, te dizer umas verdades e te amar até não haver mais mundo. Minha vontade é me esquecer dos teus esquemas, do teu drama, dos teus problemas. Minha vontade, não é pequena, de te jogar na minha cama e te beijar um poema.
“Não posso nem ter bichos de estimação. Os animais me odeiam. Uma vez, comprei um cachorro e ele passou dois dias latindo e rosnando furiosamente para mim, sem parar, até que me livrei dele. Tentei uma tartaruga. Toquei nela uma vez, o bicho não saiu mais da casca e morreu dias depois. Preferiu morrer a me ver ou ser tocada por mim outra vez. Ninguém gosta de mim, nem jamais gostará. Nem mesmo, e principalmente, eu. Sei o que sou e isso não é coisa para ninguém gostar.
– “Dexter”, de Jeff Lindsay.
“Meu amor, os olhos são sempre teus. E a culpa é sempre dos olhos. Os instantes eu guardo com cuidado porque o meu peito também é delicado, e algumas estrelas de Órion estão marcadas tanto em tua pele quando na minha. Beleza é a justaposição dos nossos mundos, corpos, ideias. O que temos não é o que se completa - é o que se ultrapassa. O silencio que apreciamos é uma declaração sorrateira de que estamos no depois, enquanto os outros ainda buscam a boca que grita. Não são os lábios, é o desespero, e você entende. Meu amor, você entende. Eu fico com as lembranças, você com a eternidade, e a essência do segundo é a minha mão sob a tua. A chuva amedronta a inocência que ainda há em mim, mas a tua voz é paz. É meu anúncio de sonhos, de sono, de tranquilidade em meio aos pingos (imaginei que fossem as goteiras da casa, a tempestade exterior, mas são as tuas lágrimas). Eu digo que te amo antes de dormir e enquanto durmo, com as pestanas entregues ao cansaço e todo o meu sentimento rendido à veracidade; eu digo que te amo antes de dormir e enquanto durmo, e nem Freud nos contradiria. Os soluços são uma confissão.
– Claudia.
“João nasceu sem chorar, levou palmada do doutor até a mãe ficar com dó. Parecia que João já veio ao mundo querendo chorar de dor, mas não queria incomodar. João comia todos os vegetais e legumes do prato. João cresceu forte e saudável, com o estômago verde e os olhos azedos pelo espinafre que engoliu ao longo da vida. João quando aprendeu a rimar, odiava o próprio nome. Odiava os colegas na hora da chamada. João, pé de feijão. João passou a odiar os contos de fada. João via girafas no céu, até que alguém disse que nuvem era água vaporizada. E João nunca mais viu uma girava no céu, por medo de contrariar. João odiava matemática, mas estudou e levou um dez por medo de reprovar. João fechava a janela do quarto quando os passarinhos acordavam, porque ele gostava de dormir sempre uma hora a mais, por medo de não conseguir assistir a aula no dia seguinte. João colocava o fone de ouvido baixo, por medo de prejudicar a audição. João reclamava quando o chiclete perdia o açúcar, e nunca passou mais de 5 minutos mascando porque detestava dentista, por medo de apodrecer os dentes. João enricou, por medo de não poder mais reclamar de nada. O João, que odiava matemática, virou engenheiro. João detestava azul, mas comprava sempre da mesma cor, por medo de mudar. João odiava a mulher que dava troco em balas, mas aceitava, por medo de ter que esperar um pouco mais na fila. João jogava as balas fora, não dava pra criança pobre nenhuma, porque não queria alimentar a vadiagem. João odiava o calor, e mandou comprar um ar-condicionado que sugava o seu nariz, porque não queria suar. João nunca montou caras no suporte do ventilador, nem ouviu como sua voz ficaria engraçada se ele tivesse gritado nas hélices. João reclamava do barulho de tábuas rangendo, e nunca conseguiu escutar o som dos netos quando eles começaram a andar. E agora o João era Seu João, um velho que nunca precisou de óculos porque nunca quis saber de ler no escuro, um homem que escutava qualquer coisa, mas preferia ser surdo a ter que ouvir todo aquele silêncio proposital, um homem que comeu todos os vegetais do prato, que não tinha uma única cárie, que era engenheiro e odiava matemática. João morreu dormindo. Por medo de incomodar.
– Cinzentos.
“Fazem meses que não te vejo, ‘que não falo com você’. Não sei se você está bem, se está estudando, se está gostando de outro alguém ou se às vezes ainda sonha comigo. Nada mais sei sobre você, além do que sobrou. Recentemente vi umas fotos suas, o corte de cabelo ainda era o mesmo, o físico, o estilo de roupas. Mas tinha algo diferente, eu sei que tinha, porém, como eu poderia explicar? Era algo no seu olhar castanho escuro, como se faltasse algo por dentro de você. Era o formato dos traços do seu sorriso, como se tivesse perdido um pedaço de você… Então lembrei, talvez o que faltava, era o pedaço de você que eu levei comigo, e não consegui te devolver.
– Caio Fernando Abreu.
“Mas não consigo deixar de pensar nos anos em quartos solitários, quando as únicas pessoas que batiam à minha porta eram as senhorias cobrando o aluguel atrasado ou o FBI. Vivia com ratos e camundongos e vinho, meu sangue escorria pelas paredes em um mundo que não conseguia compreender e ainda não compreendo. Em vez de levar a vida que eles levavam, eu passava fome. Fugia para dentro de minha própria mente e me escondia. Fechava todas as cortinas e ficava olhando para o teto. Quando saía, era para ir a um bar onde eu mendigava por bebida, andava a esmo, apanhava nos becos de homens bem-alimentados e confiantes, de homens idiotas e com vidas confortáveis. Bem, ganhei algumas lutas, mas só porque era louco. Fiquei anos sem mulher, vivia de manteiga de amendoim e pão amanhecido e batatas cozidas. Eu era o idiota, o estúpido, o louco. Queria escrever, mas a máquina de escrever estava sempre penhorada. Então eu desistia e bebia.
– Charles Bukowski.
“Somos todos feitos de podridão. Urubus rodeiam e se esbaldam na carniça que é nossa alma. Somos todos um bando de miseráveis que se enterram em suas ignorâncias e jogam ao ar o cheiro e o amor mal passado. Somos fúteis, sou fútil, você é fútil e mergulhamos todos na futilidade uns dos outros. Maldito ser humano. Todos. Podem me chamar de generalizador, podem me dizer que existem seres humanos bons e toda aquela baboseira de sempre. Mas não! O ser humano tem entranhado em seu ser o desprezo e a superficialidade. Choros, risos, alegrias, tristezas: tudo isso tem uma ponta de mau caráter e de mesquinharia. Sinto um ser humano chegar quando está a quilômetros de distância, pois o fedor que sua alma exala é tamanho que até um velho rabugento com o nariz entupido consegue sentir. É a realidade pura, nua e crua que vai de encontro com a sua cara e te dá um tapa e deixa as marcas dos dedos pelo resto do dia. Chega de dormir. Chega de achar que o ser humano tem algo de bom, porque não. Somos todos oriundos da podridão e somos moribundos em nossas cabeças grandes. Somos feios por meio e por inteiro. (Tosse).
– Anarquismos.
“Sou isso tudo o que me rodeia. Mas tudo o que me rodeia é um grande monte de coisas inúteis, chatas, bestas e imundas. Dá uma vontade de matar tudo o que me vem pela frente, porque vejo que todas essas coisas e pessoas só interrompem minha vida. Ah, pode ser que eu considere alguns, mas a maioria me enoja tanto…Espero que as coisas mudem mais na frente da estrada, tudo comece a ser mais fáceis pra mim e menos inconvenientes! O ser humano é uma grande lata de lixo e surpresas.
– O Menestrel.